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segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Refugiada

A casa estava calma, a televisão estava desligada, só se ouviam os pássaros na rua e os automóveis que passavam na estrada, alguns a tal velocidade que nem dava para ver o modelo, apenas se eram de cor clara ou escura, mas isso, não incomodava a rapariga. Algumas vezes o silêncio era interrompido pelos aviões da base aérea próxima, que teimam em fazer exercício por aquelas bandas, voando tão baixo que as janelas tremem de vez em quando, e não raras vezes ainda fazem looping sobre os telhados, e isso sim, assusta a pobre rapariga que tem medo que um lhe caia em cima da casa. Subitamente, aquela aparente calma é quebrada, ouve-se um barulho bem conhecido de um veículo a motor, e ela já sabe que o silêncio só voltará a reinar, pela noite já bem profunda. Mal chega a casa, a matrona, nem se digna dizer bom dia, para começar imediatamente a barafustar, por tudo, e por coisa nenhuma. Aquele ser, é tão chato de aturar, que a rapariga, já farta de tanta gritaria frequente, já ganhou capacidade para isolar o barulho, longe dos seus ouvidos, e não lhe dá troco, mas sabe que a ladainha irá durar até bem depois da hora do jantar, ou não se repetisse todos os dias. A gritaria, surge pelo menor motivo, mas o que se pode esperar de alguém, que desconfia da própria sombra. Os outros habitantes da casa, também fazem ouvidos de mercador, mas por vezes, e como ninguém é de pau, acabam por ter de entrar na discussão, e aí parece que rebenta uma guerra, donde nunca saem vencedores. O sr da casa, é que nunca dá tréguas, e com ele a guerra, já dura há longos anos, sempre non stop, fazendo com que, quando estão os dois em casa, pareça que o inferno desceu á terra, o que em abono da verdade, é todos os dias. Aquela casa parece um campo de conflito do Médio Oriente, sem os bombistas suicidas, mas com "explosões" de grande monta, só não caem paredes. A vizinhança deve achar que naquela casa é tudo doido, e muito francamente, a rapariga já não sabe se sim, se não, mas sabe que um dia vai abandonar aquele campo de guerra, vai ser uma "refugiada", mas vai ter Paz.

2 comentários:

Gato Pardo disse...

Viver num constante campo de batalha, é uma sensação dolorosamente familiar...Só te posso desejar força e que um dia que te ausentes de vez dessa guerra, que possas finalmente viver na paz dum silêncio profundo...

blue eyes disse...

Obrigado.
A fuga está a ser preparada como qualquer boa fuga que se preze, com estratégia militar e tudo, lol.
A única forma de sobrevivência é mesmo o facto de ir preparando o dia da "fuga", porque assim a esperança não morre.